Museus são lugares inspiradores, mas esquecidos. Há quem os coloque num lugar pouco privilegiado, acham que museus só falam de passado e, por isso, agem com negligência diante deles. Há também aqueles que supervalorizam os museus, acham que a vida era melhor no passado, acreditam que as coisas nunca mais voltarão a ser como era, é como diz aquela velha frase "a gente era feliz e não sabia". E há um terceiro grupo de pessoas que valorizam os museus, mas não se prendem a eles. De vez em quando elas visitam os museus, não porque acham que a vida era melhor no passado, mas porque sabem que o ser humano não vive sem história e às vezes é preciso resgatá-la.
O museu é apenas uma metáfora, é uma ilustração sobre a arte de lidar com o passado numa cultura que supervaloriza o presente. Acredito que essa crença faz parte do primeiro grupo de pessoas que descrevi, são aquelas que subestimam o passado e vivem o chamado "imediatismo". Ser imediatista é querer que tudo se resolva hoje e a consequência disso é a construção de pessoas ansiosas, já que, na minha opinião ansiedade não é uma preocupação exagerada com o futuro, mas um incômodo insuportável com o presente. O imediatista nega o passado, supervaloriza o presente e se esquece do futuro.
O segundo grupo é o oposto do primeiro, ele é composto por pessoas melancólicas, pessoas que se entristecem diante do presente, regozijam-se diante do passado e são indiferentes ao futuro. São aquelas que visitam diariamente o seu museu, visitas que indicam uma necessidade de estar em contato com o passado, pois é ele quem dá todo o sentido da vida. Essas pessoas entram diariamente no museu e tentam utilizar aqueles objetos que já não funcionam mais no presente, ou seja, as visitas ao passado tornam-se uma forma de tentar entrar em contato e recuperar objetos que não fazem mais parte da vida.
Já as pessoas do terceiro grupo entendem a importância do passado, elas conseguem enxergar que num museu existem objetos que não podem mais ser utilizados, estão quebrados ou desatualizados, e, por isso, entendem que eles estão ali, não para serem usados, mas para inspirar uma história, servir de referência e até ajudar na construção da própria identidade.
Enfim, enquanto o primeiro grupo nega a existência do museu e o segundo grupo vive no museu, o terceiro grupo é aquele que se inspira no museu da vida. Nisso consiste um grande desafio: deixar a negação do passado, visitar o museu, mas não permitir que ele controle a nossa vida.
Ofereço as tintas e os pincéis, use-os como desejar, afinal de contas, esse é o nosso atelier.
quinta-feira, 7 de junho de 2012
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Câmeras no Banheiro
Foi matéria de telejornal que a instalação de câmeras nos banheiros de escolas tem causado polêmica. A direção de uma das escolas que adotou essa medida diz que o objetivo das câmeras é de auxiliar na segurança da escola, já que o banheiro se tornou um lugar de refúgio para os alunos fazerem tudo aquilo que não podem fazer nas outras dependências da escola. Achei engraçada essa explicação, porque ela se confunde com o próprio significado de banheiro: um lugar para fazer tudo aquilo que não se pode fazer nas outras dependências. O banheiro é um ótimo representante da privacidade, e câmeras no banheiro é uma metáfora ainda mais rica que diz respeito a invasão de questões de foro íntimo.
Câmeras no banheiro aumentam a nossa paranoia, a vida torna-se mais persecutória.
Câmeras no banheiro aumentam nossa preocupação com o que o outro está vendo em mim, o que me leva a ser menos eu e mais o outro.
Câmeras no banheiro tiram a nossa liberdade de nos expressarmos espontaneamente e nos levam a fingirmos aquilo que não somos.
Câmeras no banheiro é a intervenção do Estado em questões familiares, como o projeto de lei da palmada que proíbe que os pais disciplinem seus filhos através de uma palmada ou de qualquer castigo físico.
Até quando vamos permitir que o outro continue colocando câmeras no nosso banheiro? Afinal de contas, se continuarmos permitindo essa invasão, o banheiro deixará de ser o lugar para fazer tudo aquilo que não se pode fazer nas outras dependências.
Câmeras no banheiro aumentam a nossa paranoia, a vida torna-se mais persecutória.
Câmeras no banheiro aumentam nossa preocupação com o que o outro está vendo em mim, o que me leva a ser menos eu e mais o outro.
Câmeras no banheiro tiram a nossa liberdade de nos expressarmos espontaneamente e nos levam a fingirmos aquilo que não somos.
Câmeras no banheiro é a intervenção do Estado em questões familiares, como o projeto de lei da palmada que proíbe que os pais disciplinem seus filhos através de uma palmada ou de qualquer castigo físico.
Até quando vamos permitir que o outro continue colocando câmeras no nosso banheiro? Afinal de contas, se continuarmos permitindo essa invasão, o banheiro deixará de ser o lugar para fazer tudo aquilo que não se pode fazer nas outras dependências.
Uma Escolha Hedonista
Sábado fui assistir à peça "Mulheres Alteradas" e uma determinada cena chamou a minha atenção. Uma das personagens estava com câncer na mama, mas dizia para as amigas que iria passar por uma cirurgia somente para o implante de prótese de silicone e, então uma dessas amigas fala algo que representa muito bem uma forma de viver da nossa cultura, ela diz o seguinte : ai como é bom ser fútil, porque ser profundo dá tanto trabalho. Realmente, é mais fácil dizer que vou colocar uma prótese de silicone do que enfrentar a dolorida realidade de um câncer. A prótese funcionaria como uma espécie de defesa, assim como a negação.
Acredito que futilidade não é cultivar a superficialidade, mas negar a profundidade da vida. Há uma distância entre cultivar e negar. Cultivo tem a ver com plantação, espera, frutos e raízes. Negação é deixar de enxergar, é iludir-se de que algo não existe. É por isso que a futilidade é mais uma questão de negação do que de cultivo da superficialidade.
No cultivo está implícito o risco de se frustrar, já na negação, por não lidar com a realidade, eu não me frustro. Na verdade, a negação é uma ótima defesa para aqueles que não querem ver e, consequentemente, sofrer.
A nossa sociedade hedonista, que privilegia o prazer, dá pouco espaço para o cultivo e acolhe a negação muito bem. Isso porque num mundo onde impera a busca pelo prazer, cultivar e investir naquilo que tem raiz é perigoso, pois aquilo que vai se construindo em profundidade pode nos levar a lugares poucos conhecidos ou totalmente desconhecidos. Ao contrário disso, a superficialidade nos leva até onde queremos ver.
A personagem em questão fez uma escolha hedonista, ela decidiu pelo superficial, ela escolheu enxergar aquilo que os olhos podem ver. Ela decidiu pela prótese. A única coisa que talvez ela não saiba é que negar uma realidade não significa que ela deixou de existir.
Acredito que futilidade não é cultivar a superficialidade, mas negar a profundidade da vida. Há uma distância entre cultivar e negar. Cultivo tem a ver com plantação, espera, frutos e raízes. Negação é deixar de enxergar, é iludir-se de que algo não existe. É por isso que a futilidade é mais uma questão de negação do que de cultivo da superficialidade.
No cultivo está implícito o risco de se frustrar, já na negação, por não lidar com a realidade, eu não me frustro. Na verdade, a negação é uma ótima defesa para aqueles que não querem ver e, consequentemente, sofrer.
A nossa sociedade hedonista, que privilegia o prazer, dá pouco espaço para o cultivo e acolhe a negação muito bem. Isso porque num mundo onde impera a busca pelo prazer, cultivar e investir naquilo que tem raiz é perigoso, pois aquilo que vai se construindo em profundidade pode nos levar a lugares poucos conhecidos ou totalmente desconhecidos. Ao contrário disso, a superficialidade nos leva até onde queremos ver.
A personagem em questão fez uma escolha hedonista, ela decidiu pelo superficial, ela escolheu enxergar aquilo que os olhos podem ver. Ela decidiu pela prótese. A única coisa que talvez ela não saiba é que negar uma realidade não significa que ela deixou de existir.
domingo, 3 de junho de 2012
Sobre a difícil e maravilhosa tarefa de começar
O atelier está pronto!
Temos o instrumento, tintas e o desejo de escrever.
Confesso que é maravilhoso escrever quando temos uma inspiração, seja algo que
o outro nos diz, uma cena do cotidiano ou ainda alguma experiência pessoal.
Normalmente, não é isso que acontece, pois na maioria das vezes começo a
escrever e só depois surgem as lembranças inspiradoras, ou seja, é preciso
começar. Assim também acontece nas nossas vidas, temos ferramentas, recursos e
desejo, mas paralelo e contrário a tudo isso, existe a dificuldade em começar algo
novo. Talvez a dificuldade em dar início vem do conflito de não entender o
nosso desejo e, por isso, não conseguir dar um significado a ele.
Já faz algum tempo que ensaio a criação desse blog, na
verdade, a inquietação existe há um bom tempo. Essa inquietação, para mim, funciona
como uma “coceira subjetiva”, é algo que começa pequeno e vai crescendo até se
tornar insuportável o suficiente para me mobilizar em direção a manifestação de
algo que ainda está aqui dentro e não tem nome. É nesse momento que é preciso
se aliar às palavras, pois elas podem dar o contorno e a existência daquilo que
ainda não é.
As palavras são, por excelência, aquilo que dão
significado e elas têm o poder de criar. Deus fundou o mundo através da
palavra. “No princípio era o Verbo, e o Verbo
estava com Deus, e o Verbo era Deus.” João 1:1. Interessante que Deus criou o
mundo não através de um substantivo, um pronome ou um adjetivo, mas a partir de
um verbo, algo que indica movimento e ação. Enfim, não basta ser palavra, é
preciso colocar em movimento.
Que as nossas palavras sejam mais verbos
do que substantivos e que elas não apenas deem nome, mas movimentem nossos
desejos a fim de que eles nos preparem para novos inícios.
sábado, 2 de junho de 2012
Um Atelier Sentimental
O mundo virtual nos possibilita reinventar espaços e significá-los de acordo com o nosso desejo. Partindo dessa ideia, posso ter a liberdade de dizer que estamos num atelier.
De acordo com o dicionário, atelier ou ateliê, é o local onde um artista ou um artesão trabalha. Além disso, pode significar um curso ou aula prática sobre uma atividade ou um assunto específico.
Atelier é, portanto, um lugar de reflexão, transformação, transmissão e criação.
A associação entre as palavras atelier e sentimento indica-nos a possibilidade de trazer a subjetividade humana para um local de reflexão.
Nada melhor do que um atelier para falarmos de sentimentos, para expressarmos pensamentos e construirmos novos significados diante da nossa história.
Um atelier nos convida a sermos cuidadosos com o trabalho que envolve a nossa subjetividade, pois ao assumirmos o lugar de um artesão, assumimos também a responsabilidade por um trabalho árduo: a reinvenção de nós mesmos. Assim como num laboratório, aqui pode ser um lugar para vivenciar experiências, algumas irão falhar, outras serão bem sucedidas, mas ambas sempre nos ensinarão.
Por fim, um atelier é um local que exige investimento. O artesão visita seu atelier todos os dias e dedica horas ao seu trabalho e assim como ele, a nossa reconstrução depende das visitas que fazemos ao nosso atelier.
Seja bem vindo ao Atelier Sentimental. Espero dar as tintas e os pincéis, use-os como desejar, afinal de contas, esse é o nosso atelier.
De acordo com o dicionário, atelier ou ateliê, é o local onde um artista ou um artesão trabalha. Além disso, pode significar um curso ou aula prática sobre uma atividade ou um assunto específico.
Atelier é, portanto, um lugar de reflexão, transformação, transmissão e criação.
A associação entre as palavras atelier e sentimento indica-nos a possibilidade de trazer a subjetividade humana para um local de reflexão.
Nada melhor do que um atelier para falarmos de sentimentos, para expressarmos pensamentos e construirmos novos significados diante da nossa história.
Um atelier nos convida a sermos cuidadosos com o trabalho que envolve a nossa subjetividade, pois ao assumirmos o lugar de um artesão, assumimos também a responsabilidade por um trabalho árduo: a reinvenção de nós mesmos. Assim como num laboratório, aqui pode ser um lugar para vivenciar experiências, algumas irão falhar, outras serão bem sucedidas, mas ambas sempre nos ensinarão.
Por fim, um atelier é um local que exige investimento. O artesão visita seu atelier todos os dias e dedica horas ao seu trabalho e assim como ele, a nossa reconstrução depende das visitas que fazemos ao nosso atelier.
Seja bem vindo ao Atelier Sentimental. Espero dar as tintas e os pincéis, use-os como desejar, afinal de contas, esse é o nosso atelier.
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