segunda-feira, 4 de junho de 2012

Uma Escolha Hedonista

Sábado fui assistir à peça "Mulheres Alteradas" e uma determinada cena chamou a minha atenção. Uma das personagens estava com câncer na mama, mas dizia para as amigas que iria passar por uma cirurgia somente para o implante de prótese de silicone e, então uma dessas amigas fala algo que representa muito bem uma forma de viver da nossa cultura, ela diz o seguinte : ai como é bom ser fútil, porque ser profundo dá tanto trabalho. Realmente, é mais fácil dizer que vou colocar uma prótese de silicone do que enfrentar a dolorida realidade de um câncer. A prótese funcionaria como uma espécie de defesa, assim como a negação.

Acredito que futilidade não é cultivar a superficialidade, mas negar a profundidade da vida. Há uma distância entre cultivar e negar. Cultivo tem a ver com plantação, espera, frutos e raízes. Negação é deixar de enxergar, é iludir-se de que algo não existe. É por isso que a futilidade é mais uma questão de negação do que de cultivo da superficialidade.

No cultivo está implícito o risco de se frustrar, já na negação, por não lidar com a realidade, eu não me frustro. Na verdade, a negação é uma ótima defesa para aqueles que não querem ver e, consequentemente, sofrer.
A nossa sociedade hedonista, que privilegia o prazer, dá pouco espaço para o cultivo e acolhe a negação muito bem. Isso porque num mundo onde impera a busca pelo prazer, cultivar e investir naquilo que tem raiz é perigoso, pois aquilo que vai se construindo em profundidade pode nos levar a lugares poucos conhecidos ou totalmente desconhecidos. Ao contrário disso, a superficialidade nos leva até onde queremos ver.

A personagem em questão fez uma escolha hedonista, ela decidiu pelo superficial, ela escolheu enxergar aquilo que os olhos podem ver. Ela decidiu pela prótese. A única coisa que talvez ela não saiba é que negar uma realidade não significa que ela deixou de existir.

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